As quatro melhores palestras do Empreende Brazil e seus principais insights

Texto de Laura Coutinho com colaboração de Aline Felkl*

Cerca de 1,6 mil pessoas de 12 estados no CentroSul em um sábado de sol em Floripa.  O que há alguns anos provavelmente fosse um evento menor e muito mais segmentado, tem atraído um número cada vez maior – e mais variado – de participantes. De um ano para outro, o Empreende Brazil Conference, realizado no último sábado (23), dobrou seu público.

O crescimento do interesse no empreendedorismo no Brasil pode estar relacionado a um conjunto de fatores, incluindo as novas possibilidades trazidas pelo universo digital, uma mudança comportamental e no mundo do trabalho, e também a recente e tão propagada busca por propósito.

O evento, realizado pela agência catarinense Lusch, soube ler essa demanda e ofereceu um dia inteiro de imersão nesse universo, com mais de 30 palestrantes em cinco arenas simultâneas e programação das 9h às 23h.

Confira as minhas quatro palestras preferidas e os principais insights que elas deixaram.

Robinson Shiba, fundador do China In Box e Gendai 

Grizi Costa, divulgação

Fundador do China In Box (maior rede de comida chinesa delivery da América Latina) e do Gendai, Robinson Shiba fez a melhor palestra do Empreende. Mesmo começando às 21h, a arena estava lotada e o palestrante foi (o único) aplaudido de pé. Com simplicidade e muito bom humor, Shiba falou sobre acreditar no sonho que, no caso dele, foi apostar, na década de 1990, no potencial de um delivery de comida chinesa, na época ainda pouco consumida no Brasil. Ele tinha conhecido o hoje popular yakissoba entregue na caixinha  durante uma viagem de estudos e trabalho aos Estados Unidos e resolveu trazer a ideia para o Brasil.

–  Era 1992 e ninguém queria comer comida chinesa aqui, havia muito preconceito – as pessoas achavam que tinha carne de cobra ou de cachorro. Eu ja era formado em Odonto e todo mundo me chamava de louco, mas meu pai me apoiou. Tive que distribuir muita comida de graça no início para convencer as pessoas de que era bom. Também passei muito tempo comendo arroz para economizar.  Acredito na frase “empresa rica, dono pobre”. Eu depositava tudo no sonho.

Aos poucos, o delivery cresceu e Shiba, instigado por um potencial franqueado, resolver criar o modelo de franchising. Na primeira feira, vendeu 35 lojas. Em 98 já estava com 80 endereços espalhados pelo Brasil. Mas nem tudo foram flores na trajetória do paulista. As tentativas de internacionalizar a marca não se mostraram bem-sucedidas, mas serviram de lição para dar mais valor à pesquisa de mercado e ao planejamento. 

O empresário acredita no conceito africano Ubuntu (“Sou o que sou pelo que nós somos”) tendo os franqueados como uma extensão da família. Também declarou  que transpirar é mais importante do que inspirar.  Hoje, com mais de 160 franquias e sabendo que seu principal concorrente é o IFood, se aliou à plataforma de delivery, mas também criou o seu próprio e-commerce.

Walter Longo,  presidente do Grupo Abril

Grizi Costa, divulgação

Apesar de ter gastado tempo demais para enfatizar a falta de comprometimento dos Millennials e deixar clara uma certa antipatia pela geração, o presidente do Grupo Abril fez uma palestra interessantíssima em que deu sua perspectiva sobre as revoluções que vivemos e sobre a importância do Big Data na gestão e no empreendedorismo.

– As pessoas falam de uma revolução, mas na verdade são várias em curso: wearable technology, geolocalizacao, social, cloud, internet das coisas, 3D printing e  inteligência artificial. Mas a principal revolução não é a tecnológica e sim a humana. Precisamos adquirir uma alma digital.

Entre outros insights, destacou alguns paradigmas e dilemas atuais.

–  Nunca fomos tão globais, nunca fomos tão tribais –  disse, referindo-se, por exemplo, às ilhas criadas por semelhança nas redes sociais.

Longo detalhou duas grandes tendências que afetam vidas e negócios: a efemeridade e a sincronicidade. 

Sobre a primeira, explicou que nesta era pós-digital, vivemos uma eterna sucessão de reinícios e de  relações fugazes.

– Mudança daqui pra frente é um estado permanente. Por isso micros e pequenas empresas, com mais velocidade para adaptação e mudança, têm vantagem frente às grandes. As empresas não morrem somente por fazerem as coisas erradas. Elas morrem por fazerem as coisas certas por um tempo longo demais.

A segunda grande tendência a ser considerada pelos empreendedores é a sincronicidade: e aí entra a importância dos dados nos negócios contemporâneos.

Segundo Longo, ao banco de dados, tem que se somar um banco de fatos, ressaltando o valor de saber a circunstância de vida dos clientes ou potenciais clientes para aumentar a taxa de conversão.

Estava dado o gancho para a palestra de Jaime de Paula, da catarinense Neoway, que desenvolveu um software de dados para empresas que queiram entrar no mundo do Big Data. Uma coisa meio Black Mirror, mas que já é realidade. A Abril entrou nessa.

Felipe Andreoli, jornalista e apresentador do Esporte Espetacular 

Cris Schulze, divulgação

Dá para ser empreendedor mesmo sendo funcionário. Felipe Andreoli, jornalista, ex-CQC e hoje apresentador do Esporte Espectacular, abriu a programação do Empreende contando como construiu sua carreira com criatividade, ousadia e inovação. A busca por fazer algo diferente – “faço todas as matérias como se fossem as últimas”- pautou sua historia, mesmo quando cobriu enfadonhos treinos de futebol, criatividade que foi aprofundada durante a experiência do CQC.

– No CQC, durante as coberturas os outros repórteres ficavam todos atrás do cercadinho, mas a gente nunca se limitava a ele. É um aprendizado pra vida.

Outra estratégia bem útil na carreira do jornalista foi se envolver para além do escopo determinado de cada função.

– No início da minha carreira eu já era o chamado vídeo-repórter (repórter que também grava e sai para as pautas sem cinegrafista). Na época, muita gente me odiava para achavam que eu roubava o trabalho dos câmeras. Agora é algo normal em qualquer emissora. Hoje, no Esporte Espetacular poderia só chegar lá e ler as matérias, mas faço questão de escrever e de me envolver com tudo.

– Quando comecei, na TV Cultura, o programa que fazia tinha 0.8 pontos, semana passada o Espote Espetacular bateu 16 pontos. Às vezes resiliência é mais importante que ser o melhor.  É importante passar os bons e maus momentos com equilíbrio. 

Ana Fontes, presidente da Rede Mulher Empreendedora 

Texto Aline Felkl *

Cris Schulze, divulgação

Participante do painel Day1 da Endevor, no qual os palestrantes compartilham seus momentos de virada, Ana Fontes contou que seu Day 1 foi aquele em que descobriu a sua verdadeira vocação. Um momento que veio muito depois de ela ter conquistado com louvor o modelo de sucesso para a sua geração: fez duas faculdades, três especializações nas melhores escolas de negócios da América Latina, construiu uma família e atuava como executiva de uma multinacional. Imagine o valor disso tudo para quem migrou criança do Nordeste com a família rumo a São Paulo e cujos pais não tiveram estudo, e que pagou a primeira faculdade com dificuldade, ajuda de amigos e com o nome estampado no ambiente escolar como devedora quando ainda não existia lei de proteção ao consumidor.

Mas o motivo que levou Ana a largar o emprego estável e rentável de 17 anos foi o mesmo que a tornou líder da Rede Mulher Empreendedora, uma organização social que busca espaço para a mulher no mundo dos negócios e tem hoje 300 mil associadas e reconhecimento internacional. Como mulher, Ana se sentia sufocada no mundo corporativo, onde ouviu uma vez que tinha um “currículo perfeito para a vaga, mas era uma pena ser mulher”. “Era e ainda hoje é um ambiente bastante hostil e difícil para as mulheres, principalmente para as que têm filhos pequenos, parece que a gente vira mãe e perde a competência”, explica.

Ela deixou a multinacional sob suspeita equivocada de estar estafada ou de ir para a concorrência, mas o que decidiu foi passar 8 meses em casa com a família. Nesse tempo percebeu que o modelo que existia em muitas empresas não fazia sentido para ela. Então quis empreender, mas deu tudo errado.

– Eu achava que sabia muito. O mundo corporativo, em alguma medida, te desprepara para empreender. Você tem muita bagagem de conhecimento, mas quando você tem um problema você aciona um setor dentro de uma estrutura, o que limita seu conhecimento à sua área. E quando você vira empreendedor você tem que cuidar de tudo.

Foi quando estava em processo de dissolução dessa empresa, em 2010, que o seu Day1 chegou. Ana foi selecionada para um programa chamado “10.000 Women”, de uma fundação que oferece capacitação para mulheres que estão empreendendo em países em desenvolvimento. Ali ela começou a Rede Mulher Empreendedora.

– Quando as mulheres empreendem, têm um impacto social maior que os homens, pois elas têm uma visão mais cuidadora, mais colaborativa. Não estou falando que os homens são ruins. Mas os cinco primeiros motivos para uma mulher abrir um negócio são razões emocionais, e o primeiro do homem tem a ver com o dinheiro. A escolha da mulher está muito ligada a como fazer para ajudar as outras pessoas –  afirma Ana.

E a vocação da Rede ela descobriu depois de levar um susto com o relato de uma mulher auxiliada pela associação que contou estar evoluindo nos negócios e, por isso, ter conseguido se separar do marido.

– Ao conversar com ela eu descobri que era um relacionamento abusivo, mas ela e os dois filhos dependiam economicamente dele. Entendi então que nós precisamos ajudar a mulher a conseguir desenvolver suas famílias e poder tomar suas decisões, pois quando somos donos do nosso dinheiro somos donos de nossas decisões. Não é uma guerra de sexos, uma luta entre homens e mulheres, é uma busca por espaços – frisou.

Segundo Ana, para empreender, precisa ter muita força de vontade e mudar da energia da reclamação para a da ação, pois é fácil apontar o que está errado, mas é preciso definir o nosso papel, e empreender é isso. Empreender é também assumir riscos. Ganhar mais, trabalhar menos e não ter chefe são as motivações mais erradas para empreender. A inspiração e o sonho são lindos, mas é preciso ter braço e capacidade para executar. Também precisamos sair da modalidade da competição para o modelo de colaboração.

 

* Aline Felkl é jornalista e sócia da Alvo Conteúdo Revelante 

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Laura Coutinho

Escrito por Laura Coutinho

Laura Coutinho é jornalista com mestrado em Relações Internacionais. Já morou em Porto Alegre, Londres e Lisboa e é apaixonada por viagens, gastronomia, cultura e inovação. Trabalhou mais de 15 anos no Grupo RBS como repórter, editora, colunista e assinou coluna social durante um ano no Jornal Notícias do Dia. Hoje, concilia a produção de conteúdo em site próprio com o trabalho de relações públicas.

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