Vencedora do Masterchef, catarinense Michele Crispim fala sobre sonhos, inspirações e a polêmica sobremesa da final

Texto de Maíra Ferraz *

Michele Crispim não imaginava que ao enviar um vídeo caseiro para a produção da quarta temporada do Masterchef chegaria a final e seria a grande vencedora, anunciada na noite desta terça (22), na última edição da quarta temporada. O foco, a doçura e a calma dessa mané da ilha de 28 anos surpreendeu a todos que acompanharam sua evolução ao longo do programa. Olhando mais de perto, porém, o sucesso certamente não veio à toa.

Wil_Koetzler, divulgação

Em conversa por telefone nesta manhã, Michele contou que após as gravações, diariamente das 8h às 20h, ia para a casa de uma amiga onde se hospedou em São Paulo e cozinhava exaustivamente madrugada adentro diversos tipos de carne (até de avestruz!) para adquirir mais técnica e segurança. O resultado foi visto ontem, no episódio final do Masterchef. Com R$ 200 mil prestes a pingar na conta e com a expectativa de fazer um curso em uma das escolas de gastronomia mais importantes do mundo, a Le Cordon Bleu em Paris, Michele conta um pouco sobre os bastidores do programa, os planos de montar um negócio e as polêmicas. Confira:

A hashtag #GanhaMichele está nos trending topics, a lista de assuntos mais comentados do Twitter. Qual a sensação neste momento de vitória?

A sensação não poderia ser melhor. O apoio do público foi muito importante e me fez acreditar que seria possível vencer o programa. Esse foi com certeza o dia mais importante da minha vida. O programa, os chefs e todas as experiências mudam tudo. Estou muito feliz e grata à torcida, minha família, amigos e todos que foram essenciais nessa vitória. A sensação é de dever cumprido, de orgulho do que fiz e daquilo que me tornei.

Tutano com crosta de cogumelos e farinha panko de entrada, cupim de prato principal e um tartar tropical de sobremesa. Como e por que optou por esses pratos?

Eu queria executar um menu bem ousado e diferente na final, porque além de surpreender eu sabia que ousar seria minha possibilidade de vencer o Masterchef. Na entrada, quis mostrar como é possível fazer um aproveitamento total dos alimentos, porque o tutano muitas vezes é descartado na cozinha. Já em relação ao prato principal, o cupim, me inspirei em uma receita que meu pai sempre faz. Claro que dei uma renovada na execução e ingredientes. Em relação à sobremesa, eu queria um prato bem leve.

Em relação à sobremesa, a chef Bel Coelho a acusou de ter copiado uma receita dela (mais tarde, a chef se retratou nas redes sociais, dizendo ter criticado Michele impulsivamente e elogiou a execução e talento da ganhadora).  O que tem a dizer sobre isso?

Sim, eu me inspirei em uma receita da Bel Coelho, amplamente divulgada. Na gravação do programa eu também comentei isso, mas na edição essa informação acabou sendo cortada. Hoje pela manhã fiz um agradecimento formal para ela nas minhas redes sociais. É claro que não é exatamente a mesma receita, foi uma inspiração. Também entrei em contato com ela, mas ainda não tive retorno.

A sobremesa deve ser uma criação própria?

Nao existe essa regra no programa. As receitas não precisam ser autorais.

Um levantamento da VEJASP aponta que ex-participantes do programa chegam a faturar até R$ 100 mil reais por mês. Como você encara essa perspectiva?

É claro que eu adoraria ganhar esse valor por mês, mas ainda tenho meus pés bem fincados no chão. Espero que seja assim, tenho boas expectativas para a minha vida pós-masterchef.

E quais teus planos sobre como aplicar o prêmio de R$ 200 mil em dinheiro?

Ainda não tenho um plano concreto, mas pretendo guardar e posteriormente investir em um negócio voltado para a gastronomia. Ainda estou desenvolvendo a ideia. Pretendo estudar muito antes, adquirir mais técnica, quero conhecer a área que me identifico mais, estagiar em restaurantes e depois abrir meu negócio próprio.

Um restaurante? Florianópolis está entre as opções?

Sim, com certeza! Provavelmente abrirei um restaurante em Florianópolis, mas isso no longo prazo. Ainda quero adquirir técnica, estudar e criar minha identidade antes. Também quero aproveitar as oportunidades que irão surgir agora.

Comente também a expectativa de fazer um curso de gastronomia na Le Cordon Bleu. Quando você vai?

Ainda não tenho data para viajar para a França. Quero fazer um planejamento da minha vida. Espero que seja em breve. Mas antes preciso aproveitar as oportunidades que vão surgir com o término do programa.

Michele ao lado de Arnaud Guerpillon , um dos diretores da Le Cordon Bleu. Divulgação

Você teve uma grande evolução, tanto de técnica quanto de confiança na execução dos pratos ao longo da quarta temporada do Masterchef. Alguns duvidavam que você seria uma das finalistas. Olhando para trás, como você avalia a Michele do primeiro episódio do programa em comparação com a Michele ganhadora?

Eu tive que estudar e treinar muito. Cada vez mais. Eu posso dizer que me dediquei 100% ao Masterchef. Mergulhei mesmo no assunto. Era um sonho para mim. Eu queria estar lá e queria vencer. As gravações eram muito intensas e cansativas, das 8h às 20h. E era na madrugada o período que eu tinha para estudar, ler livros de culinária e praticar receitas. Eu estava na casa de uma amiga e cozinhava muito na madrugada. Fazia pratos para aumentar meu repertório com diversos tipos de carnes. Fiz receitas com lula, porco e até carne de avestruz.

Quais livros te acompanharam ao longo do programa?

Foram vários, mas destaco: Todas as Sextas (Paola Carosella), Todas as Técnicas Culinárias (Le Cordon Bleu), Minha Cozinha em Paris (David Lebovitz).

O Masterchef é reconhecido pela pressão intensa das provas e a alta competitividade entre os cozinheiros. Frente às câmeras, a Michele que vimos parecia sempre no controle da situação. E longe delas? Como você lidou nos bastidores com a alta pressão e como fez para se manter tão bem e no controle na execução dos pratos?

Acho que foi decorrente do meu não-favoritismo. Eu não me sentia sob pressão, por não ser a favorita. E conseguia executar meus pratos com mais calma.

Qual o prato que você fez ao longo do programa que mais te marcou como cozinheira?

O mais marcante foi o prato da minha primeira vitória, um prato da chef Paola Carosella,  o nero di sepia com lagostim.

No discurso que você fez na semifinal se emocionou ao dizer que o programa foi importante para você olhar para si e confiar novamente em você. De qual forma a cozinha é capaz de transformar?

A cozinha me ajudou de várias formas, principalmente a ganhar confiança. Ao saber que se estiver focada eu sou capaz de melhorar e crescer. Hoje certamente sou mais segura.

Você nasceu em Florianópolis e mora em Palhoça já passou por países como Rússia, Japão, Turquia. Mas é na gastronomia francesa de onde tira sua maior inspiração. Por que?

Gosto da gastronomia francesa por ser a mais reconhecida mundialmente e também porque sempre gostei de reproduzir e comer esse tipo de culinária. Me inspirei nos grandes clássicos para me inspirar a criar. Agora passei a olhar mais a cozinha brasileira, nossos ingredientes.

Quais restaurantes você mais gosta em Floripa?

Frequento e gosto do Jardins Resto, Rancho Açoriano e a Costelaria Ponta d’Agulha.

Quais chefs locais você mais gosta?

Não tenho chefs próximos em Florianópolis.

E em São Paulo?

Me inspiro muito no Claude Troisgrois, além é claro dos chefs que serviram de grande inspiração: Paola Carosella, Erick Jacquin e Henrique Fogaça.

Como as raízes em Florianópolis influenciaram a sua forma de cozinhar?

Com certeza Florianópolis foi uma grande inspiração. Eu comecei a cozinhar com a minha família. Os pratos da minha infância também me marcaram muito como cozinheira, foram os primeiros que comecei a fazer. Lembro bastante do camarão na moranga da minha mãe e do cupim do meu pai, que me inspirou na final.

Tens alguma especialidade que goste de cozinhar em casa?

Não considero que tenho uma especialidade e acho que isso foi bom para mim no programa. Faço um pouco de tudo.

Como foi ter uma adversária como a Deborah e como era a relação de vocês longe das câmeras?

Ela é muito forte, sempre a respeitei, mas não temos proximidade fora do Masterchef.

O que te motivou a se inscrever para participar do programa? Alguém te incentivou?

Não tinha planejado. Mas eu sempre asistia a todas as temporadas. Meu marido me incentivou e quando iniciou a seleção para a quarta temporada ele me ajudou a fazer um vídeo caseiro e enviei.

Quando retorna para Floripa?

Quinta-feira (25) e pretendo descansar bastante.

Até da cozinha?

Não! Agora é hora de pegar pesado dentro da cozinha…rs.  E, claro, vou manter meu novo canal no youtube, onde toda terça vai entrar um vídeo novo com dicas de culinária, receitas novas.

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Maíra Flores

Escrito por Maíra Flores

Maíra Flores é jornalista, pós-graduada em Comunicação e RP e tem como sua especialização favorita comer e beber bem. Trabalhou por quatro anos no Grupo RBS, três deles como editora de Gastronomia e, por último, na Revista Donna. Hoje gerencia e escreve no blog Comida e Conteúdo e é gerente de comunicação em uma startup, em Florianópolis.

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