Estreia nos cinemas, o perturbador Mãe! gera incômodo e polariza espectadores

Texto de Rodrigo Kurtz*

Arte, como alguns descobriram recentemente, também é provocação. Por isso “mãe!” (assim mesmo, em caixa baixa) vem sendo considerado um dos filmes mais polarizantes do ano. Se trata de uma experiência perturbadora. Parte da audiência sai do cinema sem entender a suposta gratuidade do horror que espreita a mais nova obra do diretor Darren Aronofsky. 

Outro motivo da divisão é que cineastas como ele – pode-se citar Lars Von Trier, Luis Buñuel, Pier Paolo Pasolini, Stanley Kubrick, David Lynch e Michael Haneke entre outros gênios -, muitas vezes têm uma forma simbólica de transmitir suas mensagens. Elas aparecem na forma de metáforas e alegorias não tão facilmente decodificáveis. 

Em comum também há a coragem de ser incômodo. Mas por qual razão alguém iria ao cinema querendo passar desconforto e confusão? Talvez pelo principal sumo da arte. Reflexão. Que vem muito a calhar em tempos de pouca interpretação, pouca empatia, ódio e consumismo predatório. 

“mãe!” é sobre criação, arte e sobre humanidade. Depende do ângulo pelo qual se observa. E no gênesis disso estão Jennifer Lawrence (a personagem título) e Javier Barden (identificado como “Ele”). Um poeta e sua esposa, que vivem numa idílica mansão. Ele está bloqueado, sem conseguir escrever e ela está devotada a reformar a casa outrora destruída por um incêndio. 

Essa paz paradisíaca se esfacela progressivamente com a chegada de um estranho (Ed Harris) e posteriormente de sua lânguida esposa (Michelle Pfeiffer, numa aparição extraordinariamente estimulante). A companhia inspira Barden, que se põe lívido a escutar as histórias de Harris, e desespera a dedicada dona de casa – cuja privacidade e lar vão sendo profanados para seu (e nosso) exaspero. 

Aronofsky, que também é o autor do roteiro, utiliza-se com maestria do caos bem orquestrado para engolir o espectador – tal como fez anteriormente em “Cisne Negro” e “Réquiem Para Um Sonho“. Nele sempre há densidade e visual trabalhando juntos. 

Um filme instigante, que coloca um espelho necessário na frente do espectador. Se ele vai enxergar… Bom… Há milênios que a palavra está aí. 

Confira o trailer:

 

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Rodrigo Kurtz

Escrito por Rodrigo Kurtz

Rodrigo Kurtz é designer gráfico, formado em Comunicação Social. Editou por alguns anos o caderno de variedades e cultura no finado jornal O Estado de Santa Catarina e colabora com a Revista Clube do Champanhe, onde é responsável pela direção de arte. Recentemente passou a explorar a ilustração, tendo como temas principais suas duas paixões: os gatos e o cinema.

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